Felizmente, nunca vi ninguém usando.
Mas ouvi tanta gente falar que era a sensação do momento que desenvolvi um desprezo genuíno pela coisa antes mesmo de encontrar uma. E acho que esse é exatamente o ponto.
Para quem também não viu: é um brinquedo de pelúcia — um personagem com orelhas pontudas e dentes à mostra — que virou chaveiro de bolsa, acessório de luxo e objeto de desejo global. Chegou a custar centenas de dólares no mercado secundário. Marcas o usaram como colaboração. Influencers o exibiram pendurado em bolsas de três mil reais.
Um brinquedo. Pendurado em bolsa de três mil reais.
O mecanismo que ninguém quer admitir
O efeito manada não precisa de maioria. Precisa apenas da percepção de maioria — e a internet é especialista nisso.
Ninguém acordou um dia e pensou: eu quero carregar uma pelúcia como acessório porque isso representa quem eu sou. O que aconteceu foi outra coisa. Alguém falou. Depois mais alguém falou. Depois todo mundo estava falando. E de tanto todo mundo falar, virou verdade — virou tendência, virou sensação, virou algo que você precisava ter para provar que estava por dentro.
É o efeito manada em sua forma mais pura e mais cara. A internet cria a percepção de que todo mundo está fazendo algo, mesmo quando quase ninguém está. Você não vê ninguém usando na rua — eu não vi, você provavelmente não viu — mas o feed diz que é a sensação do momento e o cérebro registra como fato. E quando o cérebro registra como fato, a mão já está no cartão.
“Sua imagem é construída escolha por escolha. Cada vez que você confia no seu gosto em vez do gosto coletivo do momento, você está construindo algo que nenhum brinquedo de pelúcia vai construir por você.”
O problema não é ser lúdico
Existe espaço para o lúdico. Existe espaço para o brinquedo, para o fofo, para o que não leva a si mesmo a sério. Não estou dizendo que acessório precisa ser sério.
Estou dizendo que a relação de uma pessoa com a própria imagem precisa ser.
Quando você escolhe o que carrega, o que veste, o que pendura na sua bolsa — você está fazendo uma declaração. Pode ser intencional ou não. Mas ela existe. E tem uma diferença enorme entre escolher algo lúdico porque é quem você é, e escolher algo porque a internet disse que era o momento.
A Montblanc é cara. Qualquer caneta escreve. Mas quem escolhe a Montblanc não está comprando uma caneta — está comprando um símbolo de uma postura em relação ao próprio trabalho, ao próprio tempo. Existe uma comunidade em torno disso, um valor que transcende o objeto.
O Labubu poderia ter sido isso. Se fosse menor, mais singelo, se representasse uma causa real, uma comunidade com algo a dizer — seria válido. Mas não foi. Foi um brinquedo que ficou caro porque ficou famoso, e ficou famoso porque ficou caro. Circular e vazio.
Quem comprou sabia
E aqui está a parte que mais me interessa: no fundo, quem comprou sabia.
Sabia que era passageiro. Sabia que ia virar algo datado — coisa que daqui a dois anos vai ficar escondida no fundo da gaveta porque ninguém tem coragem de usar algo tão marcado por um momento tão específico.
E comprou mesmo assim.
Isso não é ingenuidade. É a capitulação ao momento — a incapacidade de esperar, de deixar passar, de confiar no próprio julgamento quando ele diz que aquilo é besteira mas a internet inteira diz que é incrível.
Eu me lembro da calça colorida da Banda Restart. Todo mundo tinha. Era o símbolo de um momento, e era exatamente isso: só um momento. Quem usou na época, tudo bem — éramos praticamente crianças. Mas tenho uma satisfação particular em saber que não cedi. Não por superioridade. Por ter confiado no que eu mesmo achava, mesmo quando o mundo inteiro falava diferente.
Essa satisfação não vem de ter comprado a coisa certa. Vem de não ter comprado a coisa errada só porque todo mundo estava comprando.
O que fica
A internet vai sempre encontrar a próxima sensação. Sempre vai ter o próximo objeto que todo mundo está usando, o próximo símbolo de que você é antenada, presente, parte de algo.
E vai sempre passar.
O filtro não é “isso é bonito?” ou “isso combina comigo?”. O filtro é: eu escolheria isso se não tivesse visto ninguém falando? Se a resposta for não — espera. Deixa passar. E depois olha para trás com a satisfação de quem não cedeu.
Identidade não é o que você compra quando todo mundo está comprando. É o que você escolhe quando ninguém está olhando.
Quem comprou sabia
E aqui está a parte que mais me interessa: no fundo, quem comprou sabia.
Sabia que era passageiro. Sabia que ia virar algo datado — coisa que daqui a dois anos vai ficar escondida no fundo da gaveta porque ninguém tem coragem de usar algo tão marcado por um momento tão específico.
E comprou mesmo assim.
Isso não é ingenuidade. É a capitulação ao momento — a incapacidade de esperar, de deixar passar, de confiar no próprio julgamento quando ele diz que aquilo é besteira mas a internet inteira diz que é incrível.
Eu me lembro da calça colorida da Banda Restart. Todo mundo tinha. Era o símbolo de um momento, e era exatamente isso: só um momento. Quem usou na época, tudo bem — éramos praticamente crianças. Mas tenho uma satisfação particular em saber que não cedi. Não por superioridade. Por ter confiado no que eu mesma achava, mesmo quando o mundo inteiro falava diferente.
Essa satisfação não vem de ter comprado a coisa certa. Vem de não ter comprado a coisa errada só porque todo mundo estava comprando.
O que fica
A internet vai sempre encontrar a próxima sensação. Sempre vai ter o próximo objeto que todo mundo está usando, o próximo símbolo de que você é antenada, presente, parte de algo.
E vai sempre passar.
O filtro não é “isso é bonito?” ou “isso combina comigo?”. O filtro é: eu escolheria isso se não tivesse visto ninguém falando? Se a resposta for não — espera. Deixa passar. E depois olha para trás com a satisfação de quem não cedeu.
Identidade não é o que você compra quando todo mundo está comprando. É o que você escolhe quando ninguém está olhando.
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